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Ceará, 11 de Fevereiro de 2012
             
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Pronunciamento

Universidade Federal de Integração Luso-Afro-Brasileira

26 de Maio de 2009 às 10:09
 
 

PRONUNCIAMENTO SR. EUDES XAVIER (PT-CE. Sem revisão do orador.) -

 

Sr. Presidente, nobres colegas Deputadas e Deputados, antes de abordar o tema do meu pronunciamento, o artigo de um grande professor da Universidade Federal do Ceará e nosso amigo, o Prof. Dr. Eduardo Girão Santiago, aproveito este momento para registrar que tramita nesta Casa o Projeto de Lei nº 3.891, que cria a Universidade Federal de Integração Luso-Afro-Brasileira, a ser instalada na cidade de Redenção, Estado do Ceará.

 

Essa universidade cumprirá o papel de promotora do intercâmbio acadêmico, de pesquisa, extensão e conhecimento científico. Creio, Sr. Presidente, que o tema abordado pelo Prof. Eduardo Girão em seu artigo tem muito a ver com a realidade do Brasil hoje, principalmente quando cita o desenvolvimento nos territórios em que se localizam as universidades, tornando-se figura central, haja vista a sua importância. O que seria de Brasília sem a UnB? O que seria de outras regiões do País sem as universidades públicas?

 


A população da região do Maciço de Baturité, Estado do Ceará, tem essa compreensão. Todos os que ali moram e trabalham têm a grande expectativa de que esse projeto de criação da nova universidade federal no Estado poderá ajudar muito as novas gerações. Ajudará também na formação de professores, numa estrita relação com o desenvolvimento agrário daquela região, tendo em vista que o projeto pedagógico busca novos profissionais para ali atuarem.

 


Vou tentar promover a sensibilização do Ministério do Desenvolvimento Agrário para a importância desse trabalho, visto que o avanço das universidades públicas tem tudo a ver com o conhecimento da Ciência, no qual também está inserido o desenvolvimento agrário.

 

Sr. Presidente, o trabalho que o grande Prof. Eduardo Girão vai apresentar na Bahia contém relato de diversas experiências de desenvolvimento local relacionado com a implantação de universidades, a exemplo do que ocorreu no Município de Maranguape e Fortaleza, onde a ONG CEARAH Periferia promove cursos para lideranças comunitárias com o apoio de grandes professores da Universidade Federal do Ceará. Isso significa que a universidade, em relação com a sociedade local, gera mais oportunidades de crescimento e desenvolvimento à comunidade.

 


Quero também destacar a grande experiência promovida pelo Centro de Valorização da Vida - CVV localizado no Bairro do Bom Jardim, em benefício da comunidade, sob a coordenação da Universidade Federal do Ceará. Portanto, uma universidade localizada perto do povo, como será a UNILAB, que dialogue de forma solidária e democrática com as comunidades, sejam trabalhadores rurais, sejam estudantes, tem muito a ver com o processo de desenvolvimento da comunidade.

 


Quero destacar também a obra inovadora do Prof. Moacir Gadotti, recentemente lançada com o título Economia Solidária Como Práxis Pedagógica, que tem tudo a ver com os processos de desenvolvimento do País.

 


Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, venho a esta tribuna para falar sobre o artigo do Prof. Dr. Eduardo Girão, intitulado Educação para o Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável: O Que as Experiências Revelam. Passo a ler o que segue:

 


Resumo: "O artigo apresenta a idéia da formação educacional no ensino médio e superior voltada para temas do desenvolvimento sustentável, tais como: meio ambiente, realidades e potencialidades regionais e locais, políticas públicas, crescimento econômico predador, controle social e cidadania. Fundamentado nas discussões que envolvem os autores Ladislau Dowbor, Pedro Jacobi, Patrus Ananias, Joseph Stiglitz, Juarez de Paula, Caio Márcio da Silveira e Tânia Bacelar, o texto indica as possibilidades de inclusão de conteúdos contemporâneos nos projetos de formação educacional para o aprimoramento da cidadania voltada para o desenvolvimento local. Apresenta, ainda, a experiência prática de territórios, a partir do conhecimento da realidade socioeconômica e da difusão da sustentabilidade e controle social como meios de assegurar a melhoria de qualidade de vida das cidades".

"Não há consenso em torno das discussões sobre a relevância do tema do desenvolvimento local. Para uns, o que de fato existe e faz sentido é a escala macroeconômica e as regulamentações e estratégias que dela decorrem para influenciar a questão do desenvolvimento nacional. Assim, o que importa na discussão do desenvolvimento é contemplar temas mais gerais e estruturais. Para outros analistas, o cenário contemporâneo da economia descortinou várias oportunidades para a viabilidade do desenvolvimento local, como a globalização e o processo de descentralização institucional que facilitaram a autonomia de iniciativas dos poderes locais, a partir do crescente movimento municipalista referendado pela Constituição de 1988. (FAURÉ e HASENCLEVER, 2007).

 


A mediação entre estas posições antagônicas, elaborada por Bacelar (2000, p.61) pode ser fundamentada pelo fato de esta autora afirmar
que reconstruir o sentido de cidade (e cidadania), ampliar o sentimento de pertencimento a um "local" (com uma história, um conjunto de valores etc.) - numa época de globalização ativa, de perda da consciência dos limites e possibilidades da manutenção de identidades nacionais, de tendências homogeneizadoras e massificantes - pode ser um estimulante projeto coletivo que ajudará a construir novas formas de convivência social.

 


Na perspectiva da opinião acima referida, Zapata et all (2001) informam a emergência recorrente de governos locais mais flexíveis que estão reinventando a democracia e melhorando a qualidade de vida dos territórios localizados. Nestas experiências despontam a participação da sociedade e o controle social sobre o desenvolvimento, caracterizando o espaço local como o lócus para a formação e o desenvolvimento da cidadania. A partir deste breve preâmbulo, para efeito pedagógico, convém transcrever o pensamento de Paula (2001, p.145), sobre o tema em evidência: entende-se por desenvolvimento local, integrado e sustentável o processo de tornar dinâmicas as vantagens características de uma determinada localidade, de modo a favorecer o crescimento econômico e, simultaneamente, elevar o capital humano, o capital social, a governança e o uso sustentável do capital natural.

 

Segundo esse autor, o "local" é entendido como qualquer recorte sócio-territorial delimitado a partir de uma característica eletiva definidora de identidade (regiões, municípios, distritos, bairros, cadeias produtivas, grupos étnicos). Quanto ao termo "integrado", pode-se entender o modelo de desenvolvimento que leva em conta a necessidade de articulação entre todos os atores que interagem no âmbito local (governo, setores produtivos, sociedade organizada), bem como entre os aspectos que interferem no desenvolvimento (fatores econômicos, sociais, culturais, político-institucinais, físico-territoriais e científico-tecnológicos).  O termo "sustentável" pode ser compreendido como o desafio e a premente consciência ética de buscar a satisfação das necessidades econômicas atuais sem comprometer a capacidade de satisfação dessas necessidades para as gerações futuras.

 

Outra concepção correlata e complementar à visão de Paula (2001) pode ser encontrada em Zapata et all (2001, p.116), relativa à idéia de que
desenvolvimento local é um processo orgânico, um fenômeno humano, portanto não padronizado. Envolve os valores e os comportamentos dos participantes. Suscita práticas imaginativas, atitudes inovadoras, espírito empreendedor. Conclama a adoção de parcerias para mobilizar os recursos e as energias. Isso aponta para diferentes caminhos segundo características e capacidade de cada economia e comunidade local.

 


Em entrevista à Revista Proposta (1998), Jean-Pierre Leroy afirmou que:
o desenvolvimento local é essa microeconomia, é reocupar os espaços esquecidos pelo grande capital, pela globalização, pelo mercado mundial e é, sobretudo, recriar novas bases de vida. O seu ponto de partida não é economicista, mas sim o da necessidade que as pessoas, os grupos, têm de sobreviver, E é só localmente que se ganha o espaço que possibilita a reconstrução de formas de trabalho, de organização social, de reorganização econômica e de criação de novas dinâmicas.

 


A partir da apreensão dos conceitos há pouco apresentados, cabe avaliar se é possível a sua efetiva adoção em territórios ainda sujeitos às turbulências do sistema financeiro internacional. Em outras palavras, convém questionar, num contexto planetário onde avança o manto da globalização, se ainda é possível sonhar com um modelo de desenvolvimento calcado em resultados orientados para a "nossa prosaica qualidade de vida, com razoável prosperidade, saúde, riqueza cultural, capital social, preservação ambiental, equidade socioeconômica e segurança pública para todos", como nos sugere Dowbor (2007, p. 81).
 

Entendo que, a partir da apreensão do conceito de Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável e do objetivo de concretizá-lo, o caminho é pôr em prática os novos requisitos da educação transformadora e emancipatória, emanados da sociedade do conhecimento e da urgente crença, urdida nos Fóruns Sociais Mundiais e apregoada por Stiglitz (2007, p. 61), de que um novo mundo sustentável é possível. Na realidade, este autor está atento a um grande movimento social de caráter planetário que tem criticado o mainstream da monolítica Ciência Econômica, lastreado nos princípios do modelo de acumulação flexível do capital, na hegemonia da especulação financeira e no processo de globalização excludente. Para reverter este processo há de se estabelecer a democratização dos benefícios proporcionados pela sociedade do conhecimento.

 

Patrus Ananias, em artigo recente (Estado de Minas, 06/07/06), sobre o processo de educação para o desenvolvimento, a partir da integração das escolas, das famílias e das comunidades para a disseminação do conhecimento, da cultura e da reflexão mais elaborada sobre o sentido maior da vida, das relações humanas em prol do nosso município, do nosso território, do nosso estado e do nosso país, adverte que há de se combinar a formação humanística com as mais recentes pesquisas e descobertas nos diversos campos da engenharia, da medicina, da física e das tecnologias da informação.

 

Consoante a opinião de Ananias, há um campo de luta e de consenso em torno da idéia de que as modernas tecnologias não devem ser apropriadas pelo capital, mas estarem a serviço da emancipação do nosso povo, como as tecnologias adaptadas ao semi-árido nordestino, por meio da permacultura, da biogenética, das oportunidades do biodiesel, da irrigação por gotejamento programado e do "emprego verde" (OIT, 2007, p. 4). Florestan Fernandes, citado por Ananias, em artigo há pouco mencionado, defendia que a escola deve conhecer e valorizar as raízes da formação das pessoas e das comunidades. Assim, a valorização da língua e da literatura pátrias, associada ao conhecimento crítico da História e da Geografia é fundamental para formação da consciência cidadã das crianças. Nessa perspectiva, Dowbor (2006, p. 2) assevera que, ao estudarem as dinâmicas migratórias que constituíram a própria cidade onde vivem, as crianças tendem a encontrar a sua origem e passam a ver a ciência como instrumento de compreensão da sua própria vida. A Ciência passa a ser apropriada e não mais apenas uma obrigação escolar.

 

Dowbor (2006) alerta, ainda, para o fato de que a educação para o desenvolvimento local está diretamente vinculada à necessidade de se formar pessoas que, amanhã, possam participar de forma ativa das iniciativas capazes de transformar o seu entorno, de gerar dinâmicas construtivas. Hoje, observa-se que não só os jovens, mas inclusive os adultos que governam desconhecem desde a origem do nome da sua rua, do seu território, até os potenciais do subsolo da região onde nasceram. A esse respeito, Jacobi (2004, p.1) destaca o fato de que, a educação deve formar as gerações atuais não somente para aceitar a incerteza do futuro, mas para gerar um pensamento complexo e aberto a indeterminações, às mudanças, à diversidade, à capacidade de construir e reconstruir um processo contínuo de novas leituras e interpretações do já pensado, formatando a possibilidade de novas ações e novas possibilidades para o desenvolvimento sustentável.

 

Tudo indica que a ausência de conteúdos atrelados à realidade do local no processo de formação educacional para o futuro é o que determina, por exemplo, o desconhecimento e a indiferença dos jovens estudantes do ensino médio em relação a temas como "crédito carbono", cultura local, convivência sustentável no semi-árido nordestino, potencialidades econômicas locais, utilização da energia solar, etc. O desconhecimento destes importantes ativos é que anestesia o potencial de desenvolvimento local das comunidades. O município de Maranguape, situado a vinte quilômetros de Fortaleza, além de possuir uma aprazível cadeia de serra com agradável microclima, produz frutas tropicais, é a terra de Chico Anísio e do historiador Capistrano de Abreu.

 

Nunca estes importantes ativos foram mobilizados, articulados e incluídos em programas de governo sob a forma de projetos nos segmentos cultural e ambiental. Na minha condição de professor universitário que milita na área da Formação Econômica do Brasil e do Desenvolvimento Regional, a cada semestre letivo repito uma dinâmica com os meus alunos que é reveladora da alienação dos jovens brasileiros a respeito de valores locais e potenciais regionais. Pergunto a eles quem já ouviu falar de Bill Gates. A maioria absoluta ergue o braço.

 

Em seguida, indago-lhes sobre quem conhece ou já ouviu falar de Delmiro Gouveia, um empreendedor nordestino do início do século XX, idealizador da geração de energia e da industrialização do vale do rio São Francisco. A resposta é decepcionante. Quase ninguém sabe quem foi este cidadão, idealizador de vilas operárias com razoáveis indicadores socioeconômicos e precursor dos atuais shoppings centers, porquanto foi o construtor do famoso mercado do Derby, em Pernambuco.

 

Em recente viagem de estudos que realizei à Chapada do Araripe, na região do Cariri cearense, deparei-me com o desconhecimento e a indiferença dos jovens em relação aos recursos naturais locais. Eles não sabem que a Chapada do Araripe produz a fava d'anta - leguminosa arbórea rica em rutina -, matéria-prima de vitaminas e de medicamentos utilizados no tratamento de varizes. Pois bem, quem está comprando a produção desta fava, a preços aviltantes, para depois agregar valor é o laboratório Merck. Bem que poderia ser uma empresa incubada e orientada pela Universidade Federal do Ceará, mediante as ações do seu programa de Incubadoras de Cooperativas Tecnológicas.

 

A não apreensão da realidade sócio-ambiental dessa região, decorrente de falhas do processo de educação, faz com que os jovens não se interessem por temas como a biodiversidade da chapada, os seus incomuns recursos paleontológicos e a sua marcante vocação cultural. Enquanto isso, esta região tem sido permanentemente monitorada e visitada por pesquisadores do mundo inteiro, que não socializam os resultados das suas "visitas técnicas".

 

A educação para a sustentabilidade precisa estimular, de forma efetiva, as responsabilidades éticas e enfatizar a inter-relação entre justiça social, qualidade de vida, equilíbrio ambiental e ruptura com o atual padrão de crescimento econômico. Não se pode mais admitir a velocidade e a desfaçatez descompromissadas da especulação imobiliária em áreas nobres do território e nem, tampouco, a invasão de práticas exacerbadas de consumo e modismos predatórios, agredindo o estoque de recursos naturais da população nativa, danificando o ecossistema.

 

Assim, Jacobi (2004) chama a atenção para o fato de que é preciso definir uma limitação às possibilidades de crescimento desenfreado e predatório. É preciso estabelecer, por meio de práticas educativas, um processo de diálogo crítico sobre o estoque de ativos ambientais do território, para construir um sentimento de co-responsabilização e de valores éticos. Não faz mais sentido que magnatas urbanos ponham os seus tentáculos especulativos na Serra de Guaramiranga, a cento e dez quilômetros de Fortaleza, interceptando fontes e riachos daquele paraíso ecológico, numa atitude de total desrespeito e indiferença a áreas de preservação ambiental - APAs. Se adotarmos a perspectiva crítica da produtividade sistêmica, estes senhores, ainda que dinamizem o setor da construção civil local, gerando emprego e renda, estão produzindo enormes problemas ambientais para as populações atuais e futuras.
 

 

Em suma: o objetivo da educação não é desenvolver conceitos tradicionais de "educação moral e cívica", sentencia Dowbor (2006, p. 6), mas permitir que jovens tenham acesso à informação, ao conhecimento e visão crítica que regerão suas vidas. A educação transformadora para a sustentabilidade, segundo o autor em foco é a que permite "entender o que acontece com o dinheiro público; os indicadores e razões da mortalidade infantil; o perfil da estrutura fundiária; quem são os maiores poluidores do território; onde estão os potenciais econômicos para o desenvolvimento". Assim, as escolas e o sistema educacional terão de articular-se com universidades locais ou regionais para elaborar o material correspondente, organizar parcerias com Ongs que trabalham contextos específicos, conhecer as organizações comunitárias e interagir com diversos setores de atividades públicas. É o caso, precisamente, do curso anual de pesquisadores sociais realizado pela ONG Cearah Periferia. Líderes comunitários dos bairros da periferia de Fortaleza são capacitados, durante seis meses, para analisar os problemas urbanos localizados nas áreas degradadas socialmente. O aludido curso ocorre graças à cooperação da ONG com a Universidade Federal do Ceará - UFC e a Cooperação Internacional Francesa.

 

Um bom exemplo de rede voltada para a educação e conscientização para o desenvolvimento sustentável é o caso da Rede Pintadas, na Bahia. Trata-se, em linhas gerais, de um contínuo processo de organização popular capitaneado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a Igreja para a recuperação de uma extensa área onde os grileiros tentavam expulsar 16 famílias de posseiros na localidade de Lameiro. Mediante a realização de mutirões e de amplo processo de debates e conscientização, a comunidade logrou a desapropriação de 250 hectares da área litigiosa por intermédio do Programa de Reforma Agrária do Governo Federal. A partir desse marco histórico, se iniciou a formação da consciência sobre a cidadania e os direitos, elementos fundamentais da participação popular que forjou a Rede Pintadas, um vigoroso processo de desenvolvimento local com sustentabilidade, nas dimensões ambiental, cultural, social e política. A concertação que deu forma e dinamismo à Rede Pintadas contou com o protagonismo do Sindicato Rural, da Igreja, da Articulação do Semi-Árido - ASA, da Universidade Federal da Bahia e de um conjunto de entidades internacionais de cooperação técnica e financeira. Em síntese, merecem destaque alguns dos projetos desenvolvidos pela Rede Pintadas: Projeto de Tecnologia Apropriada em Pequena Irrigação; Escola Família Agrícola, que forma filhos de agricultores para a convivência com o meio ambiente; Projeto Saúde, desenvolvido pela UFBA; Projeto Sistemas Agroflorestais e Viva a Água, além do Projeto de Energia Solar.

 

O professor Dowbor (2006, p. 8) nos relata que em Jacksonville, Flórida, se realiza, anualmente, um balanço sobre a situação geral da sua qualidade de vida. Avaliam-se a economia, a saúde, a educação, a segurança pública, o emprego, o meio ambiente e a cultura e o ambiente social. Estas são as categorias escolhidas pela cidade para medir e avaliar sua qualidade de vida, desde ao ano de 1983. Para se ter uma idéia desse elevado exercício de educação e conscientização para o desenvolvimento sustentável, convém observar cada uma das variáveis analisadas ano a ano.
O indicador "economia" inclui o bem-estar econômico individual e a saúde econômica da comunidade. A variável "segurança pública" inclui a imagem que os habitantes têm da segurança pública, da quantidade e qualidade dos serviços policiais, da proteção contra incêndios e dos resgates.

 

Quanto ao item "saúde", monitoram-se os resultados do sistema local de saúde pública e os níveis de saúde física e mental dos moradores. O indicador "educação" inclui o sistema de educação pública (do jardim da infância até a 12ª série), a educação superior, incluindo a educação de adultos, e os níveis gerais de alfabetização e aperfeiçoamento educacional da população.
 

 

No que respeita à variável meio ambiente, são observados os elementos naturais do ecossistema da Terra, a qualidade e quantidade de água, ar e espaço verde, as paisagens e a estética visual. O indicador "Ambiente social" abrange interesses coletivos ou grupais, tais como igualdade de oportunidades, harmonia racial, vida familiar, serviços humanitários, filantropia e serviços voluntários. Por fim, o item "cultura e recreação" inclui a disponibilidade e a participação em eventos esportivos e de entretenimento, performances e artes visuais, recreação pública e atividades de lazer.

 

Na visão de Dowbor (2006, p. 8), quando os movimentos sociais de Jacksonville articulam a avaliação dos indicadores há pouco descritos, aperfeiçoam-se, também, os sistemas de controle social, com ampla participação de parceiros. Informação, educação e cidadania devem sempre estar articuladas. No município de Quixadá, no sertão central do Ceará, um dos pioneiros na adoção das metodologias para o desenvolvimento local, anualmente está sendo realizado o Congresso da Cidadania. Neste evento são discutidos, com os diversos segmentos da sociedade, os resultados, processos e dificuldades para a execução de projetos previstos no plano de governo do município. Isso está permitindo a implantação exitosa das usinas de biodiesel em estágio de implementação pela Petrobrás, consideradas pelos cidadãos como uma revolução socioeconômica não só em Quixadá, mas em toda a região circunvizinha. Os resultados práticos de todos esses processos é o fortalecimento da cidadania, como preceitua Dowbor. Há outros exemplos interessantes, acerca da educação para o desenvolvimento, indicados pelo professor Dowbor (2006, p. 11-15) e descritos a seguir.
 

 

A cidade de Porto Alegre colocou nos mapas digitalizados todas as informações sobre a localização das unidades econômicas da cidade, registradas na Secretaria da Fazenda. Assim, quando um comerciante quiser abrir uma farmácia situará no mapa onde faltam farmácias.
Em Santa Catarina gerou-se o Projeto "Minha Escola - Meu Lugar", onde o estudo de problemas locais está sendo inserido nos currículos escolares. Universidades regionais e locais em Lages e Blumenau estão contribuindo com a elaboração de visões sobre a situação das necessidades regionais, gerando conhecimento aplicado e material didático para o ensino fundamental, escolas técnicas e instituições de formação profissional.

 

Aqui, convém alertar para o imenso potencial que se descortina no Brasil agora, quando estão sendo implantados campus universitários, mediante a interiorização do ensino superior em variadas regiões do País. Um dos exemplos mais eloqüentes da importância estratégica das universidades para o desenvolvimento local e regional é o da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA e o seu protagonismo criador no município de Sobral, no Ceará. A conjugação do ensino, da pesquisa e da extensão universitária tem produzido efeitos decisivos no âmbito da formação de recursos humanos no município, com ampla difusão nas regiões circunvizinhas.

 

Penso que a sociedade e as políticas públicas ainda não se deram conta de uma dinâmica revolucionária calcada na articulação educação versus comunicação de massa no sentido de mostrar extraordinárias experiências das gentes do Brasil, ao invés de remoer, diariamente, o fatídico caso da garota Eloá, muito mais como apelo de mídia do que por sentimentos mais humanitários. Instituições como o SEBRAE, o Programa Gestão Pública e Cidadania, da Fundação Getúlio Vargas - FGV e da Fundação Ford, o Instituto Polis, para falar somente de algumas, têm acervos sobre experiências sustentáveis realizadas nos municípios brasileiros e que não são publicizadas convenientemente. Não seria o momento de se intensificar o programa "Municípios Educadores Sustentáveis", do Ministério do Meio Ambiente e do Ministério das Cidades, a partir da ampla divulgação e reflexão de experiências exitosas? Não seria o caso de incluir no programa do SEBRAE Pequenas Empresas, Grandes Negócios, veiculado semanalmente na Rede Globo, um novo segmento de apresentação de experiências locais de sucesso?

 

No conjunto de exemplos indicados por Dowbor, provavelmente, o mais eloqüente e criativo vem da Itália, onde o chão de uma praça central é um gigantesco baixo-relevo da própria cidade e regiões vizinhas onde são visualizados os prédios, as grandes vias de comunicação, o desenho da bacia hidrográfica. Essa praça é utilizada por professores para discutir com alunos a distribuição territorial e as principais áreas econômicas, como se desenvolve e onde se concentra a poluição. Isso significa que as crianças se apropriam, através do conhecimento organizado, do território onde vivem. Isso é a verdadeira educação transformadora para o desenvolvimento sustentável. Na visão de Mayor (1998, p. 46),

 

A educação é a chave do desenvolvimento sustentável, auto-suficiente - uma educação fornecida a todos os membros da sociedade, segundo modalidades novas e com a ajuda de tecnologias novas, de tal maneira que cada um se beneficie de chances reais de se instruir ao longo da vida. Devemos estar preparados, em todos os países, para remodelar o ensino, de forma a promover atitudes e comportamentos que sejam portadores de uma cultura da sustentabilidade.

 

Considerações Finais

 

Entendo que o conjunto das argumentações apresentadas neste trabalho pode compor a pedagogia essencial para o futuro do desenvolvimento sustentável. Há algum tempo atrás, o economista Celso Furtado inaugurou um tipo de ciência econômica propositiva na América Latina e, em especial, no Brasil. Esta é a direção correta que deveremos imprimir aos nossos planos econômicos estratégicos para o desenvolvimento local. Dowbor (2007) nos chama a atenção para a premente necessidade de associarmos o desenvolvimento local com o conceito de cultura do desenvolvimento. Isto significará uma "reconciliação entre democracia política e a democracia econômica".

 

De certa forma, fico tranqüilo e esperançoso pelo fato de que o Instituto da Cidadania elaborou, recentemente, importante documento intitulado Projeto Política Nacional de Apoio ao Desenvolvimento Local (2006). No referido documento há um eixo denominado Educação e Capacitação, onde há subsídios valiosos que corroboram as questões levantadas neste texto. Tomei a liberdade de incluir nesta conclusão, na íntegra, as mais importantes propostas das 12 apresentadas do projeto acima citado. São elas:
· Fomentar a criação de cursos universitários de Desenvolvimento Local Integrado, articulando conhecimentos de administração, economia, educação, serviço social e meio ambiente, aproveitando em cada região as instituições existentes;
· Estimular a criação de programas de pós-graduação em Desenvolvimento Local Integrado, aproveitando a experiência dos poucos que já existem e a ampla experiência internacional (Barcelona, Bolonha, etc.), e visando a formar especialistas na área para o médio e longo prazos, reduzindo o atraso existente na área;
· Inserir no currículo escolar do ensino fundamental e médio, o estudo da realidade local e regional, aproveitando em particular disciplinas como História, Geografia e Ciências Sociais;
· Organizar ciclos de seminários regionais sobre o enfoque integrado do desenvolvimento local, visando à formação de professores e a geração de uma cultura de desenvolvimento participativo;
· Propiciar parcerias com os meios de comunicação da região, visando à veiculação de experiências exitosas de inovação na área do Desenvolvimento Local Integrado, aproveitando o acúmulo de numerosas instituições que têm hoje milhares de cadastros de experiência na área;
· Criar um portal colocando em rede as instituições de formação na área, incluindo universidades, sistema "S", ONGs especializadas e organizações de responsabilidade social empresarial (Instituto Ethos e outros), de modo a favorecer a circulação de experiências e conhecimentos na área;
· Reconhecer a formação e certificação de agentes de desenvolvimento como um campo de ação educacional legítimo e prioritário, passível de ser exercido por universidades e instituições especializadas a serem credenciadas".

 

Era o que tinha a dizer.


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